| As Ciências da Comunicação e a política científica e educativa
(Comunicação
proferida no encerramento do VI Congresso da SOPCOM, IV Congresso
Ibérico, VIII Congresso da LUSOCOM - Universidade Lusófona, 17 de Abril
de 2009)
Moisés de Lemos Martins*
O Senhor Ministro Augusto Santos Silva encontra-se
entre nós na qualidade de representante do Senhor Primeiro Ministro,
Engenheiro José Sócrates. Mas essa qualidade não anula o facto de o
Senhor Ministro ser também o responsável político pelo Sector da
Comunicação Social.
Gostaria de aproveitar esta dupla circunstância
para, em palavras breves, dizer ao Senhor Ministro o que entendem os
cientistas da Comunicação sobre as políticas científicas e educativas
que têm sido desenvolvidas para esta área.
Bem sei que o Senhor Ministro é o responsável
político pela Sector da Comunicação Social, e não é, em primeira mão, o
responsável político pela organização do ensino e da investigação das
Ciências da Comunicação. Mas é um responsável solidário da política
científica e educativa do país, por ser membro deste Governo. Vou
pedir-lhe, então, se me permite, que seja um fiel ouvidor, e também um
fiel transmissor ao Senhor Primeiro Ministro, tanto dos nossos anseios,
como do nosso desconforto, relativamente a vários aspectos, que, a
nosso ver, são acordes desafinados na política científica e educativa
do Governo.
Claro, gostaria ainda que o Senhor Ministro fosse o
advogado das nossas causas. É verdade que continuo a imaginá-lo como um
de entre nós, como um investigador que colaborou na fundação de um
curso de Ciências da Comunicação, em que, aliás, penso eu, também foi
docente. Esteve, além disso, comprometido com o desenvolvimento da
nossa área científica, acompanhando os progressos da nossa Associação,
tendo estado até em praticamente todos os Congressos que realizámos,
umas vezes como simples investigador, outras vezes como representante
do Governo. Mas talvez eu esteja já, apenas, a incorrer numa ilusão,
pedindo-lhe demasiado, nas actuais circunstâncias. Que o Senhor
Ministro seja, então, apenas um ouvidor e um fiel transmissor dos
nossos principais anseios e preocupações. E isso já não será pequena
coisa.
A SOPCOM é a única grande organização associativa
da área das Ciências da Comunicação, com expressão nacional e
internacional. Deveria ter, a nosso ver, um papel efectivo nas
políticas científicas e educativas que fossem decididas para a área,
sendo sempre consultada.
Deveria ser ouvida agora que se organiza o processo
de creditação dos cursos, de primeiro, segundo e terceiro ciclos.
Deveria ser ouvida, também, sobre os efeitos, para a área, da
implementação do processo de Bolonha. Deveria ser ouvida, igualmente,
sobre a necessidade de racionalizar a oferta educativa do sector.
Deveria ter sido ouvida, quando o Governo estabeleceu uma estratégia de
intervenção para a internacionalização das Ciências da Comunicação, à
revelia das estratégias de cooperação internacional já estabelecidas e
a funcionar no terreno, e à revelia também dos próprios processos que a
FCT desencadeou e estabeleceu para a avaliação da qualidade e do mérito
dos grupos de investigação existentes no país. Estou a pensar
particularmente no acordo feito pelo Governo com a Universidade do
Texas, em Austin.
Enfim, a área das Ciências da Comunicação deveria
ser olhada e tratada ao mesmo nível que o são a Sociologia, a
Antropologia, o Direito, a Filosofia, a Literatura, as Artes, várias
disciplinas mais, que têm todas um representante da disciplina, no
Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanas da FCT. Não entendo
como é que a Comunicação, que é uma área específica, reconhecida
academicamente, com mais cursos superiores e mais alunos que
praticamente todas as outras áreas juntas, não tem o mesmo nível de
tratamento nas instâncias superiores que definem as políticas e
organizam o ensino e a ciência do país.
As Ciências da Comunicação são uma área específica
nos concursos de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento, e também
nos concursos abertos para projectos. E é ainda uma área específica no
plano científico, que estabelece a rede das unidades de investigação da
FCT. Mas não me parece aceitável que não seja nunca ouvida sobre a
política científica da FCT para o sector e não tenha sequer um elemento
no Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanas para se fazer
ouvir, ao contrário do que acontece com todas as outras disciplinas de
Ciências Sociais e Humanas.
Diante dos meus colegas, gostaria de chamar ainda a
atenção do Senhor Ministro, para o seguinte: tem sentido que os poderes
públicos tomem a SOPCOM como um parceiro a ser consultado sempre que se
trate de definir políticas públicas para o sector da comunicação
social, designadamente quando se trate da regulação dos média, da
monitorização do sistema de comunicação nacional, e ainda, da definição
de políticas da comunicação para o espaço nacional e lusófono. É
verdade que ultimamente a comunidade científica nacional de Ciências da
Comunicação tem tido a possibilidade de responder a concursos públicos
que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social tem lançado para um
melhor conhecimento dos distintos públicos dos distintos média. Mas eu
estou a referir-me à única Associação nacional de investigadores de
Comunicação, de cariz nacional e internacional, que não tendo, é certo,
vocação de investigação enquanto Associação, deve ser tida em
consideração, quando se trate de definir políticas para o sector das
Ciências da Comunicação.
Vou concluir, Senhor Ministro. Que eu saiba, nunca
nenhuma associação científica portuguesa de Ciências Sociais e Humanas
conseguiu trazer para Portugal o principal congresso internacional da
sua especialidade. Vai realizar-se este ano, em Lisboa, o Congresso da
Secção de Cultura e Economia da European Sociological Association.
Já houve, em Portugal, outros grandes e expressivos congressos
internacionais de Ciências Sociais e Humanas. Por exemplo, o Congresso
da Association des Sociologues de Langue Française, em
Évora. E também o Congresso Europeu de Sociologia Rural, em Braga. E
muitos outros Congressos ainda. Mas nunca, que eu saiba, o principal
Congresso Internacional em nenhuma das especialidades das Ciências
Sociais e Humanas.
E, no entanto, foi isso o que a comunidade
científica portuguesa de Ciências da Comunicação conseguiu, o que diz
muito sobre o modo como é encarada pelos seus pares internacionais. Vai
realizar-se em Braga, na Universidade do Minho, em Julho de 2010, o
Congresso da International Association for Media and Communication Resesarch
(IAMCR). As Ciências da Comunicação em Portugal vão ter que responder
ao desafio de realizar um Congresso verdadeiramente cosmopolita, como
cosmopolita é, aliás, a ciência, apesar de as nossas primeiras escolhas
estratégicas serem lusófonas e ibéricas. Estarão nesse Congresso
investigadores de mais de uma centena de países.
Senhor Ministro, não é de um privilégio para as
Ciências da Comunicação que lhe estou a falar. Dirijo-me a V.
Excelência apenas em nome da justiça. O que pedimos aos organismos de
Estado que enquadram a área, seja em termos científicos, seja em termos
pedagógicos, é que nos tomem por aquilo que somos, como um parceiro
comprometido com a constituição, o desenvolvimento e a projecção
nacional e internacional das Ciências Comunicação.
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